Professor da rede municipal de ensino desenvolve propostas participativas em contexto de pandemia

  • Primer TV
  • 29/Jun/2020
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  • William Fernandes compartilha experiências sobre a atual dinâmica escolar e a importância da formação e do engajamento dos profissionais de educação durante o isolamento social

foto/divulgação: Arquivo SME

Professor William Fernandes, da Escola Básica Municipal Maria Conceição Nunes, produz videoaulas, propostas interativas por meio de lives durante o período de pandemia

 

Realizar vídeos, projetos e utilizar plataformas digitais são alguns dos recursos utilizados por diversos professores durante a quarentena, facilitando e auxiliando o processo de aprendizagem dos alunos. William Fernandes Rabelo da Silva é professor de Língua Portuguesa na Escola Básica Municipal Maria Conceição Nunes, localizada no Rio Vermelho e está em constante aprendizado, produzindo videoaulas, propostas interativas por meio das lives, além de utilizar plataformas digitais educacionais.

 

Efetivo da prefeitura desde 2016, William utiliza diversas ferramentas e aplicativos para realizar as aulas, como: Portal Educacional, Youtube, WhatsApp, Instagram, Google Sala de Aula, Google Forms. Os recursos utilizados por ele tornam as aulas virtuais mais criativas e dinâmicas, chamando a atenção dos alunos.

 

“O conceito de aula adquire um novo olhar. Outra forma de atuação docente tornou-se necessária para a continuidade das interações e práticas que adotamos em sala, pois a aula, em si, é sempre um ato criativo dentro dos processos dialógicos, nunca fora deles. Tivemos, nesse contexto de pandemia, que procurar modos de manter esse movimento fluido, essa interação entre professor e aluno, de maneira a singularizar e aproximar nossas relações, ou não serem elas perdidas. Encontramos, pois, nas ferramentas e aplicativos, voltados ou não para a educação, um aparato formativo, informativo e, principalmente, afetivo, um modo, assim, de manter o laço que temos com os alunos.”.

Nessa mesma dinâmica, o YouTube oferece para os alunos um espaço para a troca de ideias, comentários, sugestões e, inclusive, para a resolução de questões deixadas por outras pessoas. Os estudantes recorrem ao WhatsApp para questionar, de uma maneira mais íntima, para pedir auxílio, para saber dos informativos das Lives, entre outros. “Sentimos, por parte dos alunos, muita ansiedade e procuramos compreender e acatar suas mais variadas demandas. O professor passa a ser um apoio, mais um recurso ante o processo de amadurecimento, de segurança, que tanto é necessário na aprendizagem”.

As atividades produzidas pelos professores da Escola Básica Municipal Maria Conceição Nunes são também impressas e entregues para os alunos que não têm acesso à internet. O que tem permitido aos educadores produzirem material autoral contemplando a comunidade e o contexto no qual os estudantes vivem.

William utiliza aplicativos para edição de áudio, foto e vídeo, entre eles: Audacity, Gimp, Powerpoint, Shotcut. Alguns recursos como: Lousa virtual, Mesa digitalizadora e Lapela são utilizados para a gravação dos vídeos. “Em comparação aos anos anteriores, no máximo, usávamos ferramentas simples de edição contidas no MovieMaker, disponível nos computadores da escola. No projeto de 2019, os alunos e eu produzimos roteiros cinematográficos, mas também estudamos os conceitos de iluminação, enquadramento, trilha sonora; conceitos com os quais, após o advento da pandemia, são parte de meus dias ao gravar as aulas”.

O aprendizado é resultado dos desafios

O professor comenta que a pandemia gerou uma série de desafios para inúmeros ramos de nossa sociedade e o desafio é ainda maior para os educadores.

 

“Lecionar a distância tem nos mobilizado para encontrar meios de diminuir as ausências, mas também tem produzido ansiedades e complicações além daquelas ordinárias. O Covid-19 promoveu situações de faltas complexas das relações e dos espaços, tanto aluno, quanto professor. Nós estamos presenciando um novo paradigma educacional que ao mesmo tempo em que demonstra a importância do educador para a formação e instrução do aluno, amplia demandas e desigualdades. O que procuramos fazer em nossas práticas virtuais é ter consciência desse contexto e encontrarmos meios para que os estudantes se sintam acolhidos por parte da escola e do corpo docente.”.

 

O educador explica que antes do período de pandemia não tinha necessidade de utilizar todas o aparato tecnológico que usa atualmente, os vídeos, as lives, as postagens no Google Sala de Aula. Se fazia uso, era como apoio paradidático. “Passo muitas horas aprendendo sobre ferramentas educacionais, sobre aplicativos que possam ser utilizados nos vídeos e nas lives, uma infinidade de saberes práticos. Eu fazia uso de maneira superficial, como suporte para o roteiro cinematográfico produzido pelos alunos. Estou surpreso com essa imersão, mas preocupado ao mesmo tempo, já que a curva de aprendizado é variável e exige muito de nós, muito investimento não apenas de tempo, como também e principalmente material”.

 

Várias iniciativas estão sendo executadas pela unidade educativa durante a pandemia. Entre elas, o “Conversa com quem gosta de aprender”, de Língua Portuguesa, com os alunos de 8° e 9° ano, orientado por William. No “programa”, como costumam chamar os alunos, os estudantes entrevistam personalidades da cidade de Florianópolis ou pessoas com carreiras que são do interesse deles; outra proposta é o canal “Fala, Língua Portuguesa!” nas plataformas do Youtube e Instagram voltados para a reflexão e análise da língua portuguesa e, como recurso educacional, a sala de aula virtual “Fala, Língua Portuguesa!” pela plataforma Google Sala de Aula. Nos anos anteriores alguns professores na unidade educativa já faziam uso da plataforma e serviu de base para esse momento.

Amor pelo que faz

Ao falar sobre a profissão o professor fica emocionado. “Me identifico muito com a profissão, eu tenho um amor e uma paixão absurda por ela”. Apesar da saudade ele entende a importância de estar em casa e reflete sobre o que aprende diante dessas novas práticas e técnicas educacionais. “Acredito que nós vamos dar muito mais importância para as presenças, para os abraços, para o sorriso”. Os alunos e as práticas em sala de aula fazem muita falta para o educador. “Sinto falta dos meus alunos, das aulas, sinto falta do ambiente escolar, mas compreendo esse momento como de muito aprendizado e de reflexão diante das nossas práticas sociais, inclusive”.

O retorno dos estudantes, aqueles que têm acesso à internet, tem sido proveitoso, dada às circunstâncias, de acordo com o William. “Justamente por esses retornos que nós continuamos produzindo um material cada vez melhor”. O professor conta, em média, com 200 alunos e hoje estão conseguindo atender 130 alunos com o retorno de aproximadamente 70% deles. “Os alunos se engajam e aprendem novas funcionalidades para as ferramentas que usavam apenas para conversar ou se distrair, mas isso exige do professor conhecimento para instruir o uso diferenciado da ferramenta”.

 

A importância da reavaliação

William Fernandes explica uma visão diferenciada desse momento conturbado de isolamento social. “Eu aprecio de algum modo esse momento porque estimula nossa introspecção, nos faz refletir, nos faz pensar sobre as nossas próprias práticas. Começamos a reavaliar o uso da tecnologia, reavaliar a necessidade sem deixar de rever a importância singular do professor para a orientação e instrução dos alunos, seja dentro de nossas áreas de atuação, seja nas dinâmicas de aprendizado de todo o suporte tecnológico”.

 

“Ainda falta muito para que o aluno possa realmente fazer uso das ferramentas de forma autônoma e isso não estava muito claro no início, porque imaginamos que o estudante imerso no contexto tecnológico já faz uso intuitivo de todas as ferramentas disponíveis. Engano nosso, para cada etapa, uma nova formação, para cada uso, uma prática”.

 

O educador explica ainda que é preciso compreender muito mais as ferramentas para instrumentalizar os alunos. “Esse é um tempo de muita exigência social para com um profissional que foi formado com lousa e giz e assim continua em alguma medida modificando e ampliando suas metodologias e práticas, mas não muito distante do canetão. A verdade é que tem funcionado há décadas, dada as relações afetivas que amparam a formação de todos nós, mas hoje, de um dia para noite, a exigência subiu a níveis bem discrepantes daqueles com os quais acompanham as nossas formações”.

William salienta que as diferenças sociais ficaram ainda mais evidentes durante a pandemia, pois parte dos estudantes não têm acesso, ou se há acesso, não existe um espaço adequado para poder estudar, enquanto outros contam com recursos como banda larga, equipamentos individuais, salas ou quartos para o estudo. "Uma das coisas mais importantes que esse momento nos trouxe e nos fez refletir é mostrar a importância do contato face a face para que a aula em seu conceito mais igualitário e verdadeiro ocorra”.

“Nós somos professores e por isso mesmo precisamos elaborar, desenvolver, criar modos de seduzir os alunos para o estudo. É uma disputa constante com o tanto de notificações que eles recebem, com as ofertas de produtos, com a televisão, com tudo mais ao redor deles”, menciona William.

“Tem sido um desafio, tem sido um movimento de pesquisa e aprendizado constante que tem trazido à tona a singularidade e a importância das relações interpessoais que ocorrem no ambiente escolar”, explica ele.

 

 

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